quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

OPINIÃO - GUERRA CONTRA OS VELHOS




Solidariedade e equidade entre gerações e a infame guerra aos velhos


João Cravinho
30.12.2013

Para pessoas decentes e bem formadas, a guerra aos velhos promovida pelo primeiro-ministro a pretexto da justiça e equidade entre gerações é absolutamente infame.

A solidariedade e equidade entre gerações são princípios civilizacionais basilares. É nesse terreno fecundo que se enraíza e aprofunda a ética de responsabilidade que, por todo o lado e a cada momento, procura construir as necessárias pontes entre presente e futuro, individual e coletivo.

Nenhuma sociedade contemporânea minimamente decente e justa será sustentável contra essa ética de responsabilidade alicerçada na solidariedade e equidade entre gerações. Na eventualidade da sua derrota ou significativo enfraquecimento, a decência e a justiça não tardariam a ficar aplastadas pela sua subordinação à iniquidade e ao egoísmo que resultariam inexoravelmente do princípio alternativo neoliberal: cada um por si e salve-se quem puder.

Está em curso a revogação prática do pacto social baseado nos princípios da solidariedade e equidade entre gerações. A estratégia escolhida é a do facto consumado, desprezando a fundamentação e a consensualização através do normal funcionamento do processo político, designadamente no plano da sua conformidade constitucional. O instrumento preparatório dessa subversão é a guerra entre gerações projetada nacionalmente pelo próprio primeiro- ministro, que procura levantar  a seu favor o ressentimento, a animosidade e a agressividade de novos contra velhos.

Denunciados como perigosas ameaças à salvação das finanças públicas e ao bem-estar futuro das novas gerações, maltratam-se os velhos como se  estivessem a beneficiar de pensões excessivamente generosas e imerecidas à custa de mais impostos e/ou mais dívida pública,  parasitando as gerações ativas, sobretudo as novas gerações.

Maltratam-se também como se fosse vital para o país castigá-los publicamente, acusando-os de  predadores insaciáveis de rendimentos alheios para os quais nada teriam contribuído, máxime dos rendimentos das novas gerações. Explícita ou subliminarmente, a guerra  contra os velhos assenta na ideia, suposta óbvia e incontroversa, de que os velhos roubariam às novas gerações qualquer possibilidade de melhoria futura do seu bem-estar, de tal maneira pesado seria o fardo que pretenderiam impor-lhes. Na nossa história não haveria roubo maior e mais iníquo. Vejo com verdadeiro horror a guerra entre gerações que o primeiro-ministro vem promovendo. Tenho para isso quatro razões sólidas.

Em primeiro lugar, por uma questão de princípios civilizacionais basilares que presidem à minha visão da boa sociedade, como já referi.

Em segundo lugar, porque as transferências entre gerações funcionam de modo exatamente contrário ao que vem sendo falsamente propagandeado: os beneficiários líquidos têm sido historicamente as gerações mais novas e não as mais velhas. De facto, as investigações mais profundas e documentadas até hoje efetuadas provam, contra os resultados enviesados na base do enganador quadro informacional da primeira vaga da contabilidade dita geracional, que nos países ocidentais,  no cômputo geral de uma vida, o dinheiro tem ido dos velhos para os novos e não em sentido contrário.

Em terceiro lugar, porque mesmo que as gerações mais velhas venham a ser beneficiárias líquidas no exclusivo plano das transferências entre gerações – o que é muito provável nas próximas décadas, em data variável de país para país – o quadro de avaliações de equidade entre gerações tem de ter em conta muitos outros domínios, para além das transferências que, frequentemente, são apenas uma parte menor desse quadro. O quadro geral de avaliações tem de ponderar o balanço dos legados recebidos e transmitidos entre gerações, em especial intervivos mas não só, bem como os correspondentes beneficiários líquidos na sucessão do tempo.

Cada geração, e cada indivíduo, vive, realiza-se e ganha a sua vida  aos ombros das gerações precedentes que lhe fizeram o legado de sucessivos blocos de capital humano, de capital cultural, organizacional e social e de capital físico infra-estrutural ou diretamente produtivo. Os legados geracionais de todas estas formas de capital contribuem decisivamente para o bem-estar coletivo e individual das novas gerações. Deste ponto de vista é abundantemente claro que o legado das gerações hoje na reforma ou muito próxima dela abriu e continuará a abrir às novas gerações um quadro de possibilidades e competências infinitamente mais vasto do que aquele que receberam.
O Portugal de hoje não é de modo algum comparável ao Portugal dos anos 50 e 60 do século passado, muitíssimo mais pobre tanto no plano do rendimento e nível de vida como no do capital humano, cultural, organizacional, social, infra-estrutural e produtivo. A diferença, quase que abissal, é benefício líquido  das novas gerações obtido na base do esforço e investimento das gerações que hoje estão na reforma ou próximo dela. As novas gerações, por mais que venham a cumprir o pacto social intergeracional em vigor até recentemente, nunca chegarão a fechar o seu saldo devedor para com as velhas gerações.

E é perfeitamente natural e justificado que assim seja no contexto das vicissitudes a que o nosso desenvolvimento  foi longamente submetido. O que não é natural, e muito menos admissível, é que se faça tábua rasa desse enorme contributo das velhas gerações para o bem-estar e o nível de vida das novas gerações, no presente e no futuro. Nomeadamente, é completamente falsa e aberrante a afirmação de que as velhas gerações em pouco ou nada contribuíram ou contribuirão para o rendimento das novas gerações. Esta matéria é de fácil comprovação. Mas não sendo este o espaço apropriado para a fazer, basta ter em conta, a título ilustrativo, o importantíssimo impacto incremental das superiores qualificações educacionais e competências investidas nas novas gerações, quer à custa dos esforços e sacrifícios diretos das velhas gerações, quer indiretamente mediante as transformações socioeconomicas e ocupacionais por elas agenciadas.

Em quarto lugar, as projeções de longo prazo publicadas pela Comissão Europeia demonstram que, salvo ocorrência de cataclismo europeu prolongado por décadas, os rendimentos médios das novas gerações disponíveis para utilização em benefício próprio  excederão em muito os quantitativos médios correspondentes usufruídos pelas velhas gerações, no cômputo geral de todo um percurso de vida ativa. A margem de progressão da nossa produtividade é de tal maneira grande que a melhoria significativa do nível de vida das novas gerações só poderá ficar em dúvida se elas próprias forem excepcionalmente negligentes ou incapazes de fazer bom uso das competências nelas investidas pelas velhas gerações. Os ganhos adicionais do PIB potencialmente ao alcance do melhor uso das competências herdadas  são enormes, quanto mais se essas competências forem devidamente actualizadas e reorientadas para relançar com mais força a aquisição e uso de novas e superiores competências.

Tudo visto, os velhos hoje impiedosamente fustigados pelo Governo de Passos Coelho colocaram os seus deveres de solidariedade e equidade muito acima da simples reciprocidade. E confiaram na justiça que lhes é devida. Não são sanguessugas predadoras do bem-estar das novas gerações. Bem pelo contrário, fizeram da grande maioria dos indivíduos das novas gerações grandes beneficiários líquidos do seu legado.

Nestas circunstâncias, é moralmente abjeto e factualmente doloso que se promova a guerra contra os velhos em nome da pretensa justiça e equidade entre as gerações.


Jornal PÚBLICO

PORQUE SE FAZ UMA GUERRA


 OS PORQUÊS DO ATAQUE AMERICANO AO IRAQUE EM 1991  

Fonte: 
Curso de “Análise de Modelos e Gestão dos Recursos naturais 1", Politécnico de Milão


Custos da Guerra do Golfo  
40 mil milhões de dólares

Quem pagou?  
À primeira vista, pode parecer que os 40 mil milhões foram pagos pelos EUA.  
Em parte, isso foi verdade. 
Com efeito:  
 - 25% dos custos foram cobertos pelos EUA.
(10 mil milhões)   
- 75% dos custos foram suportados pelos países árabes, em particular pelo Kuwait e Arábia Saudita (30 mil milhões)
 O preço do petróleo antes da guerra rondava os 15 dólares por barril.  
Mas, durante a Guerra do Golfo chegou a atingir os 42 dólares por barril, gerando uma receita EXTRA estimada em 60 mil milhões de dólares
  
Quem beneficiou destes lucros?  
Nos países árabes vigora a lei dos 50%: 50% para o governo e 50% para a multinacional que explora a jazida. 
Logo… 

Mas, aonde foram buscar o dinheiro?
Receita líquida derivada do aumento do petróleo: 60 mil milhões de dólares  
- 30 mil milhões de dólares para as companhias petrolíferas  
- 30 mil milhões de dólares para os governos do Kuwait e da Arábia Saudita
  
Mas, quem são os donos das companhias petrolíferas?  
No Médio Oriente a extracção e comércio do petróleo estão totalmente controlados pelas 7 Irmãs (Shell, Tamoil, Ello.), todas americanas, 5 das quais controladas pelo governo americano. 
30mil milhões de dólares 
- 21 mil milhões de dólares ao governo americano  
- 9 mil milhões de dólares a empresas privadas americanas

Vamos a contas:

Países Árabes 
Gastos de Guerra - 30 mll milhões
Lucros devidos à subida do petróleo - 30 mil milhões
Ganhos e perdas - 0
Governo EUA
Gastos de Guerra - 10 mll milhões 
Lucros devidos à subida do petróleo - 21 mil milhões
Ganho - 11 mil milhões
Privados EUA 
Gastos de Guerra - 0  
Lucros devidos à subida do petróleo - 9 mil milhões 
Ganho -  9 mil milhões 

Começa a fazer sentido
Será que apenas queriam libertar o Kuwait? 


Os EUA, entre o aumento do preço do crude e as receitas derivadas da guerra, ganharam:  
11 mil milhões de dólares directamente  
49 mil milhões de dólares derivados da guerra!

Mas, não ficámos por aqui…  

Quem acabou por pagar a guerra contra o Iraque?
Os que utilizam o petróleo.  
Ou seja, nós!
Mas, não ficámos por aquí…
Aonde foram parar os 40 mil milhões de dólares que se gastaram com a guerra?  
À indústria de armamento que, por acaso, é maioritariamente  
AMERICANA 

Mas, não ficámos por aquí…
Considerações finais 
1 - Hoje em dia faz sentido pensar que a guerra do Golfo apenas existiu por motivos económicos e não por razões humanitárias ou de defesa da liberdade. 
Torna-se fácil compreender os motivos da guerra do Afeganistão e da eminente guerra contra o Iraque.
 No caso do Afeganistão, o objectivo foi o de implementar um governo «amigo» capaz de facilitar a construção de um oleaduto americano com 2.500 km de extensão.  
Este oleoduto, de importância estratégica para as empresas americanas, tinha como alternativa um outro com 5500 km de comprimento que, além de ficar mais caro na sua construção, também encareceria na sua exploração devido às rendas que os países atravessados iriam pedir às companhias petrolíferas.
  
Tornou-se mais fácil arrasar um país já ele destruído devido a 30 anos de conflitos internos e externos, colocar uma administração manobrada por Washigton e, simultaneamente, construir e administrar tranquilamente o oleaduto.  

2- Mas, porque quer Bush declarar novamente guerra ao Iraque? 

Porque a Arábia Saudita, o maior exportador mundial de petróleo, também é um dos países mais fundamentalistas do Islão. E, por muito que custe aos EUA, um dos principais fornecedores em meios humanos e financeiros da maior ameaça ao status-quo americano - os grupos terroristas dos quais Bin Laden se tornou cabeça de cartaz. Também se está a tornar mais difícil vender ao resto do mundo uma Arábia Saudita democrática quando a opinião pública internacional cada vez mais se apercebe da violação dos mais elementares direitos humanos por parte do regime árabe.  

3 - A forma mais fácil, obviamente, é provocar uma guerra com o Iraque e establecer um regime directamente dependente dos EUA.
Surge então a pergunta:
Porquê o Iraque?

Por 3 simples motivos:  - É um país que está impedido de se defender: a pobreza causada pelo embargo mata de fome e de doenças 300.000 crianças por ano.
- Tem um pretexto sonante: a presença de armas de destruição massiva (apenas possíveis com elevada tecnologia de ponta e vastos recursos financeiros), tentando lançar areia aos olhos da opinião pública mundial e escamoteando assim o verdadeiro motivo que é o controle do petróleo.
Com a queda da URSS existe um desiquilíbrio mundial ao ponto de, neste momento, nenhuma potência se interessar em proteger o Iraque, tornando-o assim um alvo de um ataque

 4 - Nos últimos meses estalou uma revolta social na Venezuela como consequência das desastrosas condições de vida da população ditadas pelas multinacionais norteamericanas do petróleo  
Na verdade, a Venezuela é o principal abastecedor de crude dos Estados Unidos.
Tornou-se pois prioridade da administração Bush encontrar urgentemente uma alternativa à Venezuela e à Arábia Saudita para os seus fornecimentos de petróleo. 

5 - Que fazer?  
Antes de mais, dar a conhecer ao maior número de pessoas as verdadeiras causas da guerra. Se uma pessoa vive na ignorância é facilmente manipulada. Se em contrapartida começar a pensar, é capaz de tomar medidas e posições contra actos cujo objectivo final é o dinheiro.  
Apoiar todas as iniciativas que visam evitar esta nova e inútil guerra. Bastam pequenos gestos, como amarrar um lenço branco à mochila ou ao cinto e exibir o símbolo da paz.  
Ir ao site: www.emergency.it


Pesquisa 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A DEMISSÃO DE CARLOS MULAS



23-01-2013

Co - autor de relatório do FMI para Portugal despedido por fraude

Um dos autores do relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a refundação do Estado português foi demitido esta quarta-feira da direcção da Fundação Ideas, que pertence ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), por suspeita de desvio de verbas.
Carlos Mulas é agora obrigado a rescindir contrato com a fundação e a devolver mais de 50 mil euros pagos a uma suposta Amy Martin, uma colunista que escrevia artigos para a instituição e que, na verdade, não existe.
A direcção da fundação investigou o caso e constatou que eram pagos três mil euros por cada artigo, pagamentos de que Carlos Mulas é o único responsável. O PSOE não exclui agora avançar para uma acção judicial na sequência desta notícia de fraude, avançada pelo jornal espanhol "El Mundo".

Num artigo publicado pelo próprio no site da Fundação Ideas, intitulado "Colaboração e confrontação: Os sindicatos e a social-democracia em Espanha", Carlos Mulas termina com um agradecimento a Amy Martin, a suposta colunista que agora a fundação confirma nunca ter existido.
Carlos Mulas, economista e assessor económico do ex-chefe de Governo espanhol José Luis Rodriguez Zapatero, manifestou-se publicamente contra os cortes no Estado no Reino Unido e em Espanha, mas foi um dos autores do relatório do FMI que propõe cortes de quatro mil milhões de euros no Estado português

PODE CONSULTAR AQUI O COMUNICADO DA "FUNDAÇÃO IDEAS" A EXPLICAR A DEMISSÃO DE CARLOS MULAS



28/01/13
Mas hoje a ex-mulher de Granados, Irene Zoe Alameda, explica que foi ela a autora dos artigos escritos sob o pseudónimo Amy Martin, garantindo que o seu ex-marido só soube desse facto na quarta-feira.


Segundo o jornal El Mundo relata que o gerente do PSOE, Xoán Cornide, reuniu-se com Amy Martin, o autor criado pelo ex-diretor da Fundação Ideas, Carlos Mulas e sua esposa, e assinou um contrato com ela, pagando 0, 26 € por cada personagem, incluindo espaços e traduzidos


Imagens Google

"UM CANHÃO PELO CÚ"



Texto que está a incendiar a Espanha




O seguinte texto foi publicado recentemente no El País, tendo-se tornado absolutamente viral em Espanha: comentadores sobre o terrorismo financeiro e a captura económica. Chama as coisas pelos seus nomes e faz uma análise sobre o capitalismo actual que está a incendiar não só Espanha como todo o mundo. O título é "Um canhão pelo cú", e é escrito por Juan José Millas.




UM CANHÃO PELO CÚ


Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.

Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.

Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobre protegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres. E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.

Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
Juan José Millas

TERÇA-FEIRA, 29 DE JANEIRO DE 2013


domingo, 14 de abril de 2013

TRÊS PASSOS PARA RESOLVER A CRISE DO EURO


Três passos para resolver a crise do euro

George Soros 
17/08/11

Uma solução abrangente para a crise da zona euro terá de englobar três componentes fundamentais, diz Soros.
A reforma e recapitalização do sistema bancário; um regime de euro-obrigações; e um mecanismo de emergência são essenciais, segundo o investidor norte-americano.
Em primeiro lugar, temos o sistema bancário. O tratado de Maastricht previu apenas desequilíbrios no sector público; mas os excessos no sector bancário privado têm sido bem mais graves. A introdução do euro levou a uma explosão do sector imobiliário em países como a Espanha e a Irlanda. Os bancos da zona Euro tornaram-se dos mais endividados do mundo e, continuam a ter necessidade de protecção dos riscos das suas contrapartes.
O primeiro passo tomado foi autorizar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira a salvar os bancos. Agora os níveis de capital próprio dos bancos terão de ser muito aumentados. Se uma agência garante a solvência dum banco, têm também de o supervisionar. Uma agência de supervisão bancária poderosa, a nível europeu, poderia acabar com a relação incestuosa entre bancos e agentes reguladores, interferindo mais nas políticas fiscais e menos na soberania de cada nação.
Em segundo lugar, a Europa necessita de euro-obrigações. A introdução do Euro supostamente reforçaria a convergência; na realidade, criou divergências, com níveis muitíssimo diferentes de dívida e competitividade. Se os países altamente endividados têm de pagar juros muito pesados, a sua dívida tornar-se-á insustentável. É o que se passa actualmente. A solução é óbvia: os países deficitários devem poder renegociar a sua dívida nas mesmas condições que os países excedentários.
Este passo pode ser conseguido através da emissão de euro-obrigações, que seriam seguras em conjunto pelos países membros. O princípio parece simples, mas os detalhes requerem muito trabalho. Que agência os emitiria e de acordo com que regras? Presumivelmente, as euro-obrigações seriam controladas pelos Ministros das Finanças da Zona Euro. Este conselho actuaria como contraparte fiscal do Banco Central Europeu; e seria a contraparte europeia do Fundo Monetário Internacional.
O debate centrar-se-á, pois, em torno do direito de voto. O BCE (Banco Central Europeu) opera segundo o princípio de um voto por país; o FMI dá direito de voto de acordo com as contribuições de capital. Qual destes métodos deve prevalecer? O primeiro poderia dar carta branca aos países deficitários para acumularem a sua dívida; o último poderia perpetuar uma Europa a duas velocidades. É necessário um compromisso entre os dois.
Como o futuro da Europa depende da Alemanha e como as euro-obrigações poriam a solvabilidade da Alemanha em risco, qualquer acordo irá colocar a Alemanha na cadeira da liderança. Infelizmente, a Alemanha tem ideias erradas sobre política macroeconómica e quer que a Europa siga o seu exemplo. Mas o que resulta na Alemanha pode não resultar no resto da Europa: nenhum país pode ter uma balança comercial cronicamente superavitária, sem que os outros apresentem défices. A Alemanha tem de concordar com regras pelas quais os outros países se possam também reger.
Estas regras devem conseguir obter uma redução global do endividamento. Devem também permitir aos países com altas taxas de desemprego, como a Espanha, gerir os défices orçamentais. Por exemplo, regras que estabeleçam objectivos para défices ciclicamente ajustados podem resolver amas as questões. Um ponto importante é que estas devem ser susceptíveis de correcção e melhoramento.
O Laboratório Económico Europeu e Mundial de Bruxelas propôs que as obrigações europeias constituam 60% da dívida externa dos membros da zona euro. Mas devido aos juros elevados persistentes na Europa, esta percentagem é demasiado baixa para conseguir condições de concorrência equitativas. Na minha opinião, as novas emissões de títulos deverão ser inteiramente de euro-obrigações, num limite decidido pelo Conselho.
Quantos mais euro-obrigações um país quiser emitir, mais severas devem ser as condições impostas pelo conselho. Este deverá ter competência para impor a sua decisão, pois a recusa de emissão de euro-obrigações adicionais terá de ter um poder dissuasivo final.
Isto leva directamente ao terceiro problema por resolver: o que acontece se um país não quiser ou não puder cumprir as regras acordadas? A incapacidade de emitir euro-obrigações poderia resultar num incumprimento público ou desvalorização. Na ausência de um mecanismo de emergência, isto pode ser catastrófico. Uma medida coerciva que é demasiado perigosa para ser invocada tem pouca credibilidade.
A Grécia constitui um exemplo de coacção e muito depende do desfecho da sua crise. É possível delinear uma saída viável para um país pequeno como este, mas que não será aplicável a um país de maior dimensão como a Itália. Na falta de uma saída viável e global, o regime terá de levar a cabo sanções às quais não se possa fugir - algo como um ministro das finanças europeu, que tenha legitimidade quer política, quer financeira. Tal resolução só poderá surgir após uma reflexão profunda sobre o Euro, tão necessária neste momento (especialmente na Alemanha).
Os mercados financeiros podem não oferecer as condições de moratória necessárias para pôr em prática os novos modelos. Mas sob uma pressão contínua dos mercados, o Conselho Europeu poderá ter de encontrar uma solução provisória ou temporária para evitar uma calamidade. Por exemplo, autorizar o BCE a emprestar dinheiro a governos que não tenham crédito, até estar instalado um sistema de emissão de euro-obrigações. Mas apenas uma coisa é certa: estes três problemas têm de ser resolvidos para manter o Euro como uma moeda viável.

sábado, 19 de janeiro de 2013

EXAME DA 4ª CLASSE

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Exame 4ª Classe 

Antes da aprovação de uma nova Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei 46/86)

Quantos licenciados de hoje saberiam responder a metade disto...?
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domingo, 14 de outubro de 2012

Detalhes que atenuam a austeridade...lá fora




Visão online, 07/10/2012


Em Portugal, a crise está a ser enfrentada, basicamente, à custa do aumento da receita fiscal, com cortes... no rendimento disponível das famílias. Aumentam-se os impostos, cortam-se as deduções, reduz-se o subsídio de desemprego e o abono de família, eliminam-se salários, ou parte deles, em nome da consolidação das contas públicas. Também se vai tentando cortar na despesa do Estado, de forma tímida, extinguindo umas fundações ou acabando com algumas rendas excessivas como a da energia.
O desemprego aumenta, o consumo interno cai, a economia fica ainda mais deprimida. Nada de muito diferente do que se passa um pouco por toda a Europa, incluindo nos colossos económicos, como a França e a Espanha. Porém, e ao contrário do que sucede em Portugal, lá fora vão sendo dados sinais de que a fatura da crise é para ser paga por todos. Trata-se de decisões diferentes, ligeiras nuances na forma de atacar o problema, que, por cá, poderiam fazer toda a diferença.
Eis alguns exemplos de medidas, algumas delas com peso meramente simbólico, que, se aplicadas em Portugal, poderiam aliviar o ritmo a que os portugueses estão a ir para a rua protestar.